sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Frio

"O frio chegou com a tua ausência, veio com as mãos vazias do teu hálito, silêncio vegetal das tuas gargalhadas. Antigamente quando o amôr era livre e se debruçava no colo das begónias, não existia o frio, porque o frio é uma invenção da solidão, uma consequência do desamor. Quem me socorre aqui com o recado de uma lágrima, quando os meus olhos incrédulos de distância te procuram? Esta manhã peguei numa criança pela mão e fui passear com ela junto ao rio. Depois chamei-lhe o teu nome e a criança cresceu. Falou com a tua voz e disse das gaivotas os arabescos que só tu conheces. Por instantes não senti o frio da tua ausência. Por instantes voltei a reconhecer o sulco dos navios, o arôma dos jardins, o vôo da gaivota que viaja na ternura dos teus olhos. Quem me socorre aqui ? Disse o poeta: Quem me socorre agora aqui, meu amôr clandestino desta manhã que não existe, porque as manhãs só existem quando o teu corpo está presente? Frio. O frio é uma constante quando dois corpos se separam. Principalmente quando se separam dois corpos que se amam. Ouço dizer ás pessoas lá fora que a noite chegou. Acredito. E sem ti, tanto me faz que a noite chegue, suicida da escuridão."