segunda-feira, 23 de junho de 2008
Mulher sec.XXI ?/Mulher Todos os Séculos!
Agora nesta casa “emprestada” pelo pagamento de uma renda, restava-lhe a consolação de não ter sido má mãe nem pior madrasta. Filhos! Dela, Dele, Deles! Uma geração de famílias recortadas e re-coladas em folhas A4.
Tinha prometido a si própria que os seus filhos nunca passariam dificuldades, seria a sua vingança sobre a vida. Vida/Mãe, Mãe/Madrasta, vida possível, improvisada. E tinha conseguido, tinha contribuído para a felicidade de outros.
Ali estava a lavar louça á mão, naquela minúscula cozinha improvisada, onde colocara os alimentos espalhados pela bancada, junto á pouca louça que utilizava, por medo de danificar algo que não lhe pertencesse. Dava-lhe a impressão de viver como uma cigana . Tudo desalinhado. Tal como a sua vida, tal como a sua cabeça.
Lavou a louça arrumou-a no escoador, limpou, limpou e limpou ainda o lava louça de alumínio, qual teimosa a tentar dar brilho ao que pelo passar dos anos já não o tem. O objectivo era tirar todas as bolinhas de detergente , foi-o fazendo demoradamente apertando-as com as pontas dos dedos , que teimavam em fugir-lhe, tal sonho não concretizado, daqueles que só durante o sono se tem . Corremos , corremos atrás dele sem nunca o alcançar.
Tirou o avental, e olhou-o constatando que nunca tinha comprado um avental novo, não por não poder, mas porque tinha a teimosa mania de transformar o velho em novo. Fazia parte de uma geração de mulheres cujas mães (algumas) ensinavam a “reciclar” no intuito de poupar mais uns tostões ao fim do mês. Vivia o dilema da mulher de ontem/mulher de hoje , os valores tradicionais e as obrigações dos dias de hoje eram incompatíveis.
Constatava agora que era a primeira vez em mais de quinze anos que estava a lavar louça á mão, com um avental á frente parecido com o da sua avó. ( a mãe infelizmente não lhe servia de exemplo para muita coisa)
Estava nestes pensamentos a dirigir-se para a sala com vontade de se senta r no sofá e fumar um cigarro, mas não ousou passar da porta, olhou para dentro e aquela sala cheia de nada, pareceu-lhe enorme. Estava só.
Entrou apenas para ir buscar o tão desejado cigarro ao parapeito da lareira. Acendeu-o e caminhou pelo corredor , passou pelo quarto do filho. E viu os caixotes de pertences deles amontoados . Aqueles caixotes tinham a história de uma vida de várias pessoas lá dentro.
Os sonhos, os segredos, as alegrias, as tristezas. Já tinha aberto e fechado aqueles caixotes vezes sem conta com vista deitar “o lixo para o lixo”. Nunca tivera coragem de chegar ao fim, de cada vez depois do “lixo” seleccionado voltava a repor tudo lá dentro outra vez.
Afinal é tão difícil desfazermo-nos das nossas memória!
Tudo era valioso, tudo falava, nada era lixo, nada era efémero, conseguia lembrar-se de cada objecto , onde o adquirira, quem lhe o tinha oferecido ou como o tinha feito.
Não sabia o que iria ser da vida deles. Estava outra vez na estaca zero. A opção tinha sido dela. Era uma mulher de decisões.
Entrara no quarto do filho: O cheiro a tabaco vai-se espalhar ! Ele não vai gostar, terei de pôr spray de lavanda ou acender uma vela! Adorava o cheiro e a mística das velas.
No chão do quarto um par de meias sujas, e a meio metro uns slips dos simpsons, mais á frente uns jeans que ele tinha vestido no dia anterior. Os poucos livros de banda desenhada que ele tinha trazido da casa onde tinha nascido , estavam agora abandonados num canto daquele gélido quarto.
Naquele quarto não haviam brinquedos!
Mais um dia em que tudo correra mal. Quando se entra em maré de azar não há nada que não nos aconteça. É a lei de Murphy : Tudo o que poderá eventualmente correr mal, corre mal de certeza.
Viver daquela maneira destabilizava-a demais. Ver o filho de favor numa casa cheia de caixotes e sem brinquedos onde tudo lhes faltava , era demasiado, não estava a aguentar tanta pressão, tinha de mostrar boa disposição , mas agora estava demasiado cansada, estava com uma enorme ressaca porque passara demasiados anos sem falar no que sentia.
Precisava de um dia encontrar uma forma de exteriorizar todos os seus pensamentos, os seus desejos, os seus devaneios e tal mulher apaixonada dedicá-los a uma folha A4 ou talvez ao seu portátil.
PORTÁTIL???? Trabalho!!!Empresa!!!Que pesadelo eu tive esta noite ?! Vou chegar atrasada á reunião outra vez… Chiça que não tenho emenda!!!
Levantou-se, vestiu-se á pressa, meteu uma maçã na boca , pegou no PC e na mala, e saiu a correr … -
Não reparou que ía de tailleur vestido e de chinelos de quarto.
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