quarta-feira, 2 de junho de 2010

Eu sei...

Cheguei. Estavas com o olhar prostrado no prato, não levantaste a cabeça, não olhaste para mim, continuaste levando o garfo à boca, vezes sem conta de forma mecânica, o prazer não te estampava o rosto. Não sorriste. Estavas pálida, pálida e enrugada, muito mais enrugada do que da ultima vez que te vi. Já nem sei quando foi. Passou tanto tempo que lhe perdi a conta. Mas foi certamente há muito tempo. Tempo demais. O tempo passa, e perdemos tanto. Um dia vou te perder e arrepender-me de não ter tido tempo para ti. De cada vez que te vejo parto com um sentimento que me corrói a Alma, deixar-te ali, não te levar comigo , não ter tempo para ti. Esquecer-me de mim de novo para pensar em ti. E vou-me embora. Foram tantos anos a tratar de ti. Preciso de me encontrar, sem ti. Preciso de mim. E vou-me mais uma vez deixando-te para trás. Sinto-me implacável, penitencio-me, e lembro-me que sempre tomei conta de ti, e que isso não é natural mas sim ao contrário. Algures no tempo não me deixaram ser criança e tenho saudades da infância que não tive. Mas tu não tens culpa, a ti ninguém te Amou.
Apesar de tudo sei que me amaste como sabias.
Estavas linda. Tu és linda. O tempo não consegue apagar os teus traços. Adivinha-se pelo que és agora o quanto deves ter sido bonita.
Abracei-te, acariciei a tua pele macia. Parece veludo a tua pele. Sussurrei baixinho:
“Mãezinha gosto tanto de si”
Fechaste os olhos, e senti na minha pele encostada à tua as lágrimas que não verteste porque o tempo e o sofrimento te as secaram.
Mãe se pudesse teria sido tua mãe, ter-te ia dado o Amor que te negaram e tu Mãe não terias tido necessidade de seres protegida por mim.
Mas mãe, eu sei que me amaste, eu sei que me amas.